Olhou-a fixamente nos olhos e nada
falou pois palavras apenas desvirtuariam aquele momento, palavras quebrariam a
magia mas os olhos dela desviaram e o que parecia ser puro e natural tornou-se
tenso e árido. Nunca mais os olhos se encontraram. E as palavras que não foram
ditas por medo de quebrar a magia estão guardadas sob sete chaves esperando que
a fênix resurja para sair de seu esconderijo.
Lábios que se encontrariam e se
comunicariam em uma linguagem muda e tudo seria dito, tudo seria entendido e os
olhos não mais se desviariam, não mais se encabulariam em sorriso tosco. Corpos
que poderiam se fundir em nós de pernas e abraços e vazios preenchidos não mais
permitem-se encontrar sequer distraidamente.
Imerso nesses pensamentos Atila
percebia-se cansado, não tanto fisicamente embora o peso da idade já começasse
a surtir efeito, mas um cansaço mental como se toda uma serie de decepções e
meias realizações se acumulassem e pressionassem sua massa encefálica e
procurassem um vão para escaparem sem o menor efeito. Mas esses pensamentos não
poderiam dominá-lo. Não poderia transformar-se em um personagem de Sartre.
Sempre agira movido pelos ganhos e não pelas derrotas então por que se
permitiria agora dominar-se por esses....?
- Perdão!
Senhor, O sinal está aberto, cuidado! É melhor esperar fechar para atravessar.
Nesse momento percebeu que estava andando pelas ruas e
vagando em seus pensamentos e que fora despertado por uma suave voz feminina
momentos antes de cometer um suicídio involuntário ao atravessar uma avenida
movimentada.
Paralisou-se e mais uma vez sua dificuldade de
aproximação com o sexo feminino veio a tona. Uma linda menina na flor da
juventude acabara de salvar sua vida e ele não conseguia emitir sequer uma
palavra de agradecimento, um simples obrigado. Paralisou-se frente ao que
representava o que ele mais admirava e ao mesmo tempo desejava. A Juventude e a
Mulher. E por alguns segundos aquela mulher se preocupou com ele, um homem
estranho e alem de estranho por ser desconhecido estranho por ser esquisito.
Assemelhava-se a um demente, ali parado com cara de idiota.
- Senhor, Algum
Problema? - perguntou ainda suave a menina que não se intimidou com o aspecto
esquisito de Atila.
- Ah Não, desculpe-me mas fui hipnotizado pela sua
beleza - Atila nem sabe de onde tirou coragem para dizer tal coisa e a menina
ao invés de se ofender demonstrou gostar do comentário com um sorriso tímido.
- Você não deveria conversar assim com estranhos,
ainda mais um estranho estranho como eu. Minha aparência não te assusta? -
Disse Atila em tom paternal.
Isso se justifica pois Atila não poderia ser
considerado um tipo bonito, ainda pelo contrario seus cabelos longos e soltos
embaraçados levemente grisalhos e sua barba falha por fazer há mais de um mês,
seus tênis furados na ponta e rasgados em baixo, sua calça jeans de uso diário
já há duas semanas. Apesar dele ser um sujeito limpo seu aspecto era sujo e
repulsivo à primeira vista e ele não fazia nenhuma questão de mudar.
- Não senhor, eu vejo alem dos estereótipos e posso
dizer com certeza que o senhor tem a alma pura.
- Pare de me chamar de senhor mas como você pode me
achar de alma pura se ao te olhar eu desejo mais do que apenas conversar com
você?
- Bom, eu lhe respondo com uma pergunta: O que há de
impuro no sexo? Quando há empatia mutua entre duas pessoas o sexo é algo
inclusive sagrado.
Atila não podia acreditar que tanta sabedoria vinha
daquela linda boca vermelha de batom. Ele que sempre foi vitima de pre-conceitos
por sua aparência estava agindo da mesma forma com aquela menina, julgando-a
pela aparência.